RETAFINALL.BLOGSPOT.COM.BR..ONLINE: Bruna Linzmeyer, vítima de homofobia, afirma: ‘Perdoo com facilidade’

domingo, 11 de junho de 2017

Bruna Linzmeyer, vítima de homofobia, afirma: ‘Perdoo com facilidade’

Bruna Linzmeyer, vítima de homofobia, afirma: ‘Perdoo com facilidade’

Bruna Linzmeyer, vítima de homofobia, afirma: ‘Perdoo com facilidade’

Bruna Linzmeyer repercute virada do papel em ‘A força do querer’
Bruna Linzmeyer repercute virada do papel em ‘A força do querer’ Foto: Jorge Bispo/Divulgação
Flávia Muniz
Bruna Linzmeyer liga o som. Se solta com “Cheia de manias” — aquela do Raça Negra “didididididiê” — na voz dengosa de Vivian Benford; passa pelo batidão do funk de Nego do Borel, “Não me deixe sozinho”. Faz caras e bocas com “Maiô da Mulher-Maravilha”, de Noporn; vai ao clássico sertanejo “Evidências”, de Chitãozinho & Xororó; sensualiza com “Baby”, de Gal Costa; curte o axé tradicional do Olodum, “Deusa do amor”. E por aí vai... A playlist diz muito sobre a versatilidade dessa artista. Bruna é camaleônica. Uma em mil.
A menina, que chega ao apartamento do renomado fotógrafo e amigo Jorge Bispo — um 301 charmosíssimo do Jardim Botânico — para as fotos deste ensaio, está de bermuda de moletom, camiseta surrada, meião, tênis e cara lavada. É prática na escolha dos looks e se maquia sozinha. Quer cabelo liso para destacar a versão malévola de Cibele, sua personagem em “A força do querer”. Não demora muito, surge um mulherão, dona de hipnotizantes olhos azuis e boca carnuda, só de body. Não quis saia, calça nem short. Gostou assim. Sobe no salto agulha. Mas dispensa. Prefere o coturno e mantém o meião. Faz mais o seu estilo.
— Minha função aqui é ser essa Mulher-Maravilha, então eu assumi esse papel da bonita, que posa para as fotos, que fala sobre o trabalho e sobre coisas em que acredita. Mas essa é uma das pessoas que eu sou. Tenho uma menina dentro de mim e muitas outras — avisa Bruna.
Bruna Linzmeyer posa para ensaio de lingerie
Bruna Linzmeyer posa para ensaio de lingerie Foto: Jorge Bispo/Divulgação
Suas personagens também revelam um pouco dessa pluralidade. Ela já foi autista (“Amor à vida”), rebelde (“A regra do jogo”), professora (“Meu pedacinho de chão”), viciada em heroína (no filme “A frente fria que a chuva traz”)... Agora, é vingativa. Cibele foi humilhada e abandonada às vésperas do casamento. Cega de ódio, tem feito tudo para o ex-noivo, Ruy (Fiuk), sentir o gostinho do próprio veneno. Isso na ficção, porque, fora dela, a intérprete é só paz e amor:
— Sou uma pessoa que perdoa com muita tranquilidade. Nunca fui ferida desse jeito, mas acho que Cibele permitiu um pouco que tudo isso acontecesse. Eu jamais estaria no lugar dela, porque não me casaria. E vingança é uma coisa que nem passa pela minha cabeça.
Mas passa pela de Cibele. Por isso, Bruna entrou no clima de “aqui se faz, aqui se paga” da personagem e encarnou a noiva traída para a capa da Canal Extra. Nessa história, segundo ela, o grande vilão é Ruy:
— Ele é machista, maldoso, manipulador, cheio da razão. O que ela faz é entendível, porque o cara foi muito escroto. Ele não só a traiu, mas também a enganou todos os dias e ia continuar nessa pegada. Não caiu só o Ruy, o amor, caiu sua crença sobre o que era bom — defende.
Contra o modelo de união tradicional imposto pela sociedade, Bruna acredita que família e filhos vão muito além de uma simples assinatura num papel:
— Uma coisa é falar de construção humana, de criar uma pessoa, ter oportunidade de ensiná-la. Isso é lindo e pode acontecer de milhões de maneiras. Para tal, não precisa estar casada de um jeito clássico. Complicado é o casamento, essa instituição. É tão absurdo. Tem contrato. Você assina para dizer o quê? Eu te pertenço, você me pertence, eu sou o seu dono, eu mando em você... São coisas que a gente deve se questionar.
Liberdade é a palavra-chave para essa catarinense de 24 anos. Nada é proibido desde que consentido:
— As pessoas podem se apaixonar por outras. Dói para quem está do outro lado, óbvio, mas ninguém tem culpa e, que bom que isso acontece, porque essa é a nossa engrenagem. Acho que tudo depende dos acordos. E existem milhares.
Na trama de Gloria Perez, Cibele foi moldada conforme as regras. Na vida real, Bruna transgride naturalmente. Já viveu romances abertos, fechados, e tudo certo. Faz o que lhe dá na telha.
— Os meus funcionaram muito bem, tanto os abertos quanto os fechados. Acredito em relacionamentos monogâmicos e poligâmicos, conheço gente de todo tipo. Você só tem que entender o que quer naquele momento com aquela pessoa. Mas, mesmo numa relação monogâmica, o fato de você estar casada ou namorar alguém não quer dizer que essa pessoa te pertence, nem você a ela. É sempre bom preservar o respeito pelo outro — deixa claro.
Cobrança, obsessão, nada disso faz parte de sua cartilha, ela diz. O que não significa que seja imune ao ciúme:
— É gostoso sentir ciúme. Também gosto que sintam de mim, acho saudável. Mas não é para me retirar do mundo, não é para brigar, proibir. Ninguém manda em ninguém.
Bruna se posiciona, dá a cara a tapa. Foi assim ao assumir sua bissexualidade publicamente. Por quatro anos, a atriz viveu com o poeta e ator Michel Melamed, 16 anos mais velho do que ela. Atualmente, namora Priscila, a quem chama carinhosamente de “Pri”. Sem segredos, tudo às claras:
— Gosto de homens, de mulheres, de pessoas. Eu me apaixono e me interesso pelo ser humano, não importa que gênero ele tenha. Não há o que esconder. E, se alguém não quiser trabalhar comigo por preconceito, eu vou achar até bom. Quero conviver com pessoas que acreditem num mundo melhor, e o mundo melhor em que eu acredito é esse em que gente não tenha preconceito de namorar alguém do mesmo gênero.
Bruna Linzmeyer
Bruna Linzmeyer Foto: Jorge Bispo/Divulgação
Mostrar-se como verdadeiramente é tem suas consequências. Nem todo mundo está pronto para lidar com a realidade nua e crua, sem hipocrisia. E, para a artista, a reação veio a galope. Bruna foi vítima de ataques homofóbicos na internet. Nada que a tenha fragilizado, garante. Sua resposta para os haters é a sinceridade. Da imagem pública, ela tira proveito para falar abertamente sobre este e qualquer outro assunto:
— Os ataques que eu sofri, as coisas que eu escuto, que leio nas redes sociais, olhares estranhos, sempre existiram. Mas isso é tão pouco perto do que, de fato, é grave no mundo, sabe? As pessoas perdem emprego, são mortas, expulsas de casa... Isso é grave. Comigo está tudo bem! Óbvio que eu tenho medo e eu não quero perder trabalho porque sou bissexual, mas essa é quem eu sou, não existe outra opção dentro de mim. Não quero levantar bandeira, só desejo continuar trabalhando. A gente deve se encorajar a falar sobre o assunto, sim. Isso ajuda muito. Já me escreveram sobre essa questão. Se eu posso contribuir de algum jeito para as pessoas falarem que isso não é um problema, porque não é, que bom!
Com relação a toda essa exposição, o maior cuidado foi com os pais, Rosi e Gerson. Mas deles, ela teve total apoio.
— Meus pais são maravilhosos, eles receberam muito bem! Meu pai falou: “Você tem que amar, ser feliz, não me importa o resto. Espero que consiga enfrentar tudo isso. Não vai ser fácil, mas a gente está do seu lado” — conta Bruna, que já apresentou a namorada para a família.
A favor de toda e qualquer forma de amor, a atriz reforça a importância de se quebrar paradigmas:
— As coisas não têm que ser tabus, a palavra existe na história do mundo para clarear, para dar forma. Falar é precioso. As pessoas, dentro dos seus relacionamentos, não têm que ter medo de conversar sobre isso, não têm que ter medo de sentir atração por outras pessoas. Que bom que a gente sente, a gente está vivo e isso movimenta energia.
Na longa estrada que surge pela frente e, de tantas aventuras que ainda vai vivenciar, a maternidade é uma delas:
— Acho que ter um filho deve ser uma das coisas mais lindas do mundo, não só o amor por outro ser, mas ver seu corpo se transformando... Quero viver isso um dia!
De uma beleza perturbadora, Bruna sabe do seu poder de sedução. É segura, domina a cena:
— Eu me acho muita coisa! (risos). Mas não é assim o tempo inteiro. Fisicamente não posso ter vaidade pelo meu ofício. Tenho gordurinha, celulite... É um corpo bonito, mas tenho imperfeições como todo mundo. Não acredito em grandes intervenções, mas não condeno. Sou muito tranquila, não tenho muito do que reclamar. Faço ioga, análise, pilates, mergulho no mar e na cachoeira de vez em quando, saio com os amigos para jantar, bebo, como, e tudo isso vai cuidando de mim física e emocionalmente.
Com nudez, o pensamento segue liberal. Bruna não vê problema em se mostrar como veio ao mundo. Tanto que estampou a capa de #1, revista de Jorge Bispo. São 60 páginas dedicadas a um ensaio nu com a atriz, sem Photoshop.
— Para trabalhos contextualizados, não tenho vergonha, medo da exposição física. Sobre o ensaio com Bispo, a gente acreditou num olhar específico, sem aquela coisa da mulher perfeita em posições sexy. É um nu, que em alguns momentos é sensual e em outros não, sem manipular o corpo, porque eu acredito nessa história de quem bebeu um vinho, comeu 200 brigadeiros... Está tudo ali, nas dobrinhas, nas manchinhas de sol... Na verdade, a nudez física é tão boba. Porque a grande nudez, a que interessa, que é de um olhar, do coração, essa é rara. Corpo todo mundo tem.
Sexo e liberdade, para ela, caminham lado a lado. E ser livre é fazer o que se tem vontade.
— Sexo é importante fisicamente. As substâncias que ele solta no corpo são produtivas para a gente no dia a dia, acalmam, dão alegria. E une um casal. Tendo amor ou não, deve ser vivido! Acho que a gente tem que ter coragem para descobrir novos jeitos de transar, de se relacionar — provoca.
Nascida e criada em Corupá, um pequeno município catarinense de colonização alemã com cerca de 15 mil habitantes, Bruna é instinto puro, “in natura”.
— Minha grande referência é a natureza. Eu brincava muito no meio do mato, nadava em cachoeira, tinha cobra venenosa no quintal... Eu sou parte dessa potência!
Quando se mudou, sozinha, para São Paulo aos 16 anos para estudar, não tinha ideia do que faria da vida, sequer cogitava a atuação. Descolar um papel na TV foi questão de sobrevivência. De lá para cá, tomou gosto e não parou mais.
— Eu não tinha vontade de ser atriz. Um dia, acabou o dinheiro, e meus pais disseram que eu tinha que voltar, mas eu não queria. Então, fui na agência de modelos em que eu estava inscrita e falei que queria fazer um teste para a Globo. Achava que isso ia me trazer dinheiro para eu não ter que voltar para casa. E, de um jeito muito louco, uma semana depois, eu fiz um teste e passei. Quando estreei em “Afinal, o que querem as mulheres?”, com Luiz Fernando Carvalho (diretor) e Michel Melamed — que veio a ser um grande amor, parceiro durante muito tempo, ainda é e sempre será — tudo fez sentido para mim. Porque vi as coisas sendo inventadas e podia brincar de inventar com elas, de um jeito sério. Eu quis fazer parte disso e também fui escolhida pelo meu ofício. Isso é muito lindo.
Além da TV, tem cinco vezes Bruna no cinema. No dia 3 de agosto, entra em cartaz “O filme da minha vida”, de Selton Mello; no mês seguinte, ela surgirá em “O grande circo místico”, de Cacá Diegues. Ainda tem “O banquete”, da cineasta Daniela Thomas; “O que resta”, dirigido por Fernanda Teixeira; e “Partiu Paraguai”, de Daniel Lieff.
Enquanto os trabalhos na telona ainda estão no forno, a atriz segue arrepiando com as armações de Cibele.
— Eu estou adorando essa fase irônica, cínica dela. Estou me divertindo... Cibele sempre foi uma mulher muito terra, mental, pragmática. Ela tinha uma força, uma consciência de tudo, controlava bem as coisas, mas estava cega. O que ela faz agora é colocar um espelho e dizer: “Aqui está a hipocrisia de vocês. Aqui está aquilo em que vocês não acreditam, o que vocês são, mas não sabem.
Diferentemente da personagem, Bruna parece bem resolvida na vida e na carreira, e não teme a solidão.
— Não tenho medo de ficar sozinha. Nem em casa, nem de viajar, de ir ao cinema... Acho até bom. Às vezes, gosto de ficar na minha companhia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Slide (Não Editar Aqui so html)

RETAFINALL.blogspot.com.br